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O ABC da Língua Culta - 2

Cláudio Moreno

Na coluna anterior, os leitores me viram anunciar, com o maior entusiasmo do mundo, a chegada às livrarias do tão esperado ABC da Língua Culta, do professor Celso Pedro Luft. Publicado em fatias ao longo de vários anos, nas páginas do Correio do Povo, o ABC, que agora vem à luz na forma de um robusto volume de mais de quinhentas páginas, é, sem dúvida, o lançamento mais importante do ano.

Para que o leitor mais jovem possa avaliar a contribuição que Luft deu a este estado (aqui.com inicial minúscula, como deve ser - e como ele sempre ensinou), fique sabendo que ele realizou a proeza inimaginável de manter, ao longo de mais de dez anos, uma coluna diária sobre os fatos de nosso idioma. Diária, meu caro leitor! De 1970 a 1984, todos os dias, ano após ano, onze meses por ano, lá estavam elas, incansáveis. Mantenho sempre à mão a caixa de sapatos (na verdade, a caixa de um par de botas campeiras) em que guardo as colunas que recortei. Muitas se extraviaram em algum distante caminhão de mudança, mas ainda me restam duas mil, pouco mais que a metade. Duas mil! - e todas elas colunas densas, ricas de exemplos e de explicações valiosíssimas. As minhas estão arrumadas em ordem crescente, a última leva o número 3.885 e discorre sobre o vocábulo "reiuno", a pedido de um CTG de Veranópolis. Era assim mesmo; choviam consultas de toda a parte, de todas as cores e credos, e, aos poucos, "O Mundo das Palavras" foi se tornando o oráculo de todos nós, o lugar onde os aflitos e os curiosos sabiam que iam encontrar as respostas que procuravam.

Como o professor Luft desenvolveu este longo trabalho antes do surgimento da internet (que só chegou por aqui nos anos 90), este vastíssimo material acabou adquirindo uma curiosa estrutura cíclica e, à primeira vista, repetitiva: assim como os golfinhos mergulham para reaparecer lá adiante, certas perguntas apareciam aqui para voltar a aparecer acolá, anos ou meses mais tarde. A razão fica muito clara, se compararmos os recursos de hoje com os que estavam disponíveis naqueles anos heroicos: num saite como o Sua Língua (www.sualingua.com.br), que mantenho na internet, o material é cumulativo; ali convivem, lado a todos os artigos que publiquei até hoje - do primeiro, de oito anos atrás, ao último, postado na semana passada. Resposta dada é resposta arquivada, que ficará ali para sempre, disponível para qualquer pessoa que venha a ter uma dúvida semelhante. Nosso mestre Luft, no entanto, que só contava com o jornal, tinha de voltar ao mesmo tema cada vez que um leitor o trouxesse à baila, apesar de já ter escrito sobre ele várias vezes. Era um verdadeiro trabalho de Sísifo. Por exemplo - e considerando que minha coleção está bastante incompleta - o emprego dos sufixos "eano" e “iano” foi explicado nas colunas 26, 158, 699, 2.389 e 3.638; a locução haja vista compareceu nas colunas 156, 382, 2.407 e 3.702; o gênero de soja, nas de número 58, 644 e 985. Embora as sucessivas reapresentações jamais sejam simples cópias das respostas anteriores (porque ele, incansável pesquisador, sempre dava um jeito de enriquecê-las com exemplos novos e argumentos mais recentes), esse caráter reiterativo impede que o material seja automaticamente transformado em livro, tornando necessário um trabalho de consolidação das diferentes versões. O gigantesco texto acumulado ao longo de quatro mil artigos tornou-se, assim, uma verdadeira montanha aurífera que esconde, em seu interior, vários livros possíveis. Dois já foram publicados pela Editora Ática - O Romance das Palavras e A Vírgula -, e muitos outros ainda estão lá dentro, prontos para ser extraídos.

Existiam, no entanto, espalhadas no meio desses milhares de colunas, aquelas a que o próprio Luft dava o título especial de O ABC da Língua Culta; em vez das tradicionais respostas aos leitores, estas - já nitidamente organizadas para publicação em forma de livro - traziam, em ordem alfabética, uma relação sistemática das questões que normalmente fazem hesitar, na hora de escrever. Era uma obra completa, servida - como afirmei acima - em fatias; faltava apenas encontrar o editor que as reunisse num volume e as transformasse em livro. No meio de vários outros projetos, no vaivém da existência, contudo, o tempo passou rápido demais, e o professor Luft nos deixou sem ver o ABC publicado. Pois agora, finalmente - sob a orientação cuidadosa da Lya Luft a Editora Globo finalmente completou o ciclo que tinha ficado em suspenso por mais de dez anos e nos deu, a todos os que compartilham o prazer pelas palavras, este verdadeiro presente.

Continua na próxima coluna...


Sábado, 31 de julho de 2010.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.